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Terça, 07 de setembro de 2010

Entrevistas

Ricardo M Massola - Ginástica Laboral

(PROMIND): O que é a Ginástica Laboral?
(Dr. Ricardo): A Ginástica Laboral é um conjunto de exercícios e atividades físicas de curta duração, realizados coletivamente no local de trabalho, durante a jornada dos trabalhadores, com objetivos diversos para a saúde do trabalhador e para a saúde corporativa, entre eles a prevenção e o tratamento lesões ósteo-musculares ocasionadas pela sobrecarga de trabalho.

(PROMIND): O que ganha a empresa com a implantação de um programa de Ginástica Laboral?
(Dr. Ricardo): A Ginástica laboral promove uma diminuição significativa do número de queixas ósteo-musculares, trabalhando não só na diminuição do número de novos casos de dor, como no tratamento dos casos já existentes. Associado a esse fato, estudos demonstram que a Ginástica Laboral é capaz de diminuir o consumo de medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios por parte dos trabalhadores. Ela também é constantemente usada em horários estratégicos para o despertar do trabalhador, com o objetivo da diminuição do número de acidentes. Todos esses fatores auxiliam na diminuição de custos por parte da empresa pela diminuição do absentismo, dos afastamentos e do número de reclamações trabalhistas. Outros benefícios constatados e avaliados por mim são a percepção de melhora da capacidade de trabalho e a diminuição da fadiga do trabalhador.
Além disso, ela também tem sido utilizada como uma estratégia para a integração de equipes.

(PROMIND): Como a Ginástica Laboral influência a qualidade de vida do funcionário no ambiente de trabalho?
(Dr. Ricardo): A Ginástica Laboral atua, principalmente, no domínio físico da Qualidade de Vida. Sabemos que a percepção da dor possui influência não só física como psicossocial. Através da diminuição da percepção de dor, estamos melhorando a Qualidade de Vida do trabalhador. O mesmo acontece para um outro aspecto físico, que é a fadiga. A percepção de energia e fadiga também é positivamente alterada pela Ginástica Laboral. Por fim, a capacidade de trabalho, que é um outro aspecto de extrema importância para a Qualidade de Vida, é também positivamente alterada pela Ginástica Laboral.
Devo também ressaltar que muitos trabalhadores relatam que a Ginástica Laboral foi o fator que os levaram a procurar e realizar uma outra atividade física fora do ambiente de trabalho.

(PROMIND): Em algumas empresas a Ginástica Laboral não produz resultados satisfatórios. Isso ocorre mais por falha no projeto ou por falta de capacitação do profissional?
(Dr. Ricardo): Ocorre, na maioria das vezes, por falta de gestão, que corresponde tanto a uma falha no projeto como na falta de capacitação. A Ginástica Laboral não é uma atividade simples, principalmente sendo aplicada na atualidade, em que encontramos uma nova realidade corporativa. Busca-se resultados, melhoria contínua evidências. O projeto deve ser estruturado de tal forma que todos os trabalhadores saibam a importância da Ginástica Laboral. O profissional deve saber quais são as evidências e os índices importantes para serem medidos. Deve conhecer as áreas de trabalho e adaptar a Ginástica Laboral para a realidade da empresa. Isso não se faz sem a devida capacitação do profissional.

(PROMIND): Quais fatores são determinantes para o sucesso da implantação de um projeto de Ginástica Laboral em uma empresa?
(Dr. Ricardo): Devemos, em primeiro lugar, seguir uma metodologia de implantação de projetos que já tenha demonstrado sua efetividade. Em segundo, devemos encarar a Ginástica Laboral como um processo e não um programa. Os programas possuem começo, meio e fim. Já um processo é contínuo, com planejamento, implantação, verificação de resultados e melhoria contínua. Devemos buscar o empoderamento dos trabalhadores, ou seja, eles devem sentir-se donos do processo e que serão constantemente cobrados pelos resultados que lhes cabe, como a participação.
Por último, acredito que o profissional deve ser habilitado para a Ginástica Laboral. O perfil para atendimento corporativo é extremamente diferente do perfil de profissional autônomo.

(PROMIND): Quais são as maiores dificuldades encontradas pelo profissional na implantação de um projeto? Onde os erros são frequentemente cometidos?
(Dr. Ricardo): Nesse último ano, fui constantemente chamado por diversas empresas para prestar consultoria frente a programas que já existiam. O maior problema que encontrei foi a falta de planejamento. Os projetos possuem filosofia e justificativa coerentes, porém não são pautados por aspectos práticos. Os projetos falam exaustivamente dos benefícios da Ginástica Laboral, mas não possuem um planejamento de quais atividades serão realizadas, nem quando. Os trabalhadores não possuem nenhum tipo de feedback, não sabem os resultados gerados por sua participação. Sem isso, não há estímulo para a participação.
Acredito que o maior desafio para o profissional é o de buscar uma participação efetiva na atividade, por parte dos trabalhadores. Encontramos as mais variadas desculpas para a não participação. Se a empresa possui uma política clara quanto a Ginástica Laboral e se a sensibilização, que é a primeira etapa de qualquer processo, for realizada, a participação é melhor.

(PROMIND): A grade curricular dos cursos de fisioterapia e educação física no Brasil oferece a formação necessária para o fisioterapeuta e o professor de educação física atuar com projetos de Ginástica Laboral ou, de uma forma mais abrangente, com projetos de Qualidade de Vida no Trabalho?

(Dr. Ricardo): Para os projetos de Ginástica Laboral, ambos os cursos possuem uma boa base das disciplinas aplicáveis: anatomia, fisiologia, biomecânica, cinesiologia, entre outras. Entretanto, deve-se ter o conhecimento específico de ergonomia, de saúde do trabalhador e de gestão de projetos. Por isso, vejo que, para a Ginástica Laboral, ambos possuem o potencial e são habilitados, mas necessitam do conhecimento específico teórico e prático.
Já os demais programas de Qualidade de Vida no Trabalho exigem bastante o conhecimento sobre o desenvolvimento, implantação e gestão de programas no ambiente corporativo. E isso só é feito com estudos específicos na área. Entretanto, os profissionais da saúde possuem a grande vantagem de já possuírem o conhecimento técnico das atividades aplicadas.

(PROMIND): Como tem sido a contribuição da ciência com relação à produção de conhecimento de boa qualidade nessa área de atuação?
(Dr. Ricardo): No início de meus cursos de Ginástica Laboral, costumo sugerir um exercício interessante, quando possível: se você digitar o termo “Ginástica Laboral” em um site de buscas da internet, terá mais de 70 mil referências ao termo. Entretanto, se digitar o mesmo termo em uma base científica de dados, como a Bireme, encontrará pouco mais de 10 referências. As maiores contribuições científicas no Brasil estão nas dissertações de mestrado e teses de doutorado sobre o tema. Já a contribuição estrangeira é um pouco mais significativa, com pesquisas são caracterizadas como atividade física ou alongamentos no trabalho. Em geral, é um campo extremamente crescente e com diversos problemas e hipóteses para ainda serem pesquisados.
Já com relação aos estudos sobre Qualidade de Vida no Trabalho, as pesquisas são diversas e bastantes otimistas. O campo é amplo, envolvendo diversas ciências como saúde, recursos humanos, segurança do trabalho, sociologia, psicologia social, entre outras. Já existem evidências suficientes para justificar e apontar as ações em Qualidade de Vida e atividade física no trabalho como sendo benéfica para o trabalhador e para a empresa. A isso, chamamos de “Paradigma do ganha-ganha”.

(PROMIND): Qual é a sua experiência prática e científica com projetos de Qualidade de Vida no Trabalho?

(Dr. Ricardo): Sou mestre em Qualidade de Vida, Saúde Coletiva e Atividade Física pela UNICAMP. Em minha dissertação de mestrado, pesquisei as diferenças existentes entre um grupo de trabalhadores fisicamente ativos e um grupo de trabalhadores sedentários, no que diz respeito à sua Qualidade de Vida, capacidade de trabalho, dor e fadiga. Os trabalhadores realizavam exercícios físicos em um local implantado na empresa, como uma academia. Os resultados foram extremamente satisfatórios, os quais costumo comentar em meus cursos.
Sou também pós-graduado com título de especialista em Gestão da Qualidade de Vida na Empresa, também pela UNICAMP. Nessa instituição, sou membro do Grupo de Estudos em Qualidade de Vida e Atividade Física, em que desenvolvo pesquisas sobre Qualidade de Vida no Trabalho e sou o responsável pelas disciplinas de Implantação de Programas de Qualidade de Vida em Empresas, Métodos de Avaliação em Qualidade de Vida e Ergonomia para a pós-graduação. Tenho diversos capítulos de livro publicados, com temas como Estresse, Avaliação da Qualidade de Vida, Etapas de Implantação de Programas e Mudança de Comportamento. Tenho outros capítulos sobre dor, fadiga e capacidade de trabalho, sobre implantação de programas como a Ginástica Laboral e práticas corporais para controle do estresse e sobre lesões no esporte.
Com relação à minha prática, sou o responsável pelo programa de Qualidade de Vida de diversas empresas, como a Petrobrás, em que gerencio os processos de Ginástica Laboral, Quick Massage, avaliação física, orientação para a prática de atividades físicas, atividades sócio-educativas para trabalhadores e familiares e estabelecimento de parceria com academias. Sou o responsável por um programa semelhante na Wabco Freios, que possui sua própria academia; no Marba, com Ginástica Laboral e Ergonomia e ALCOA, com alimentação saudável, atividade física e fisioterapia. Participei no programa de levantamento de riscos para a saúde em diversas empresas, como a farmacêutica Daichii-Sankyo, no programa de alimentação saudável da Motorola, na elaboração de laudo ergonômico para a DuPont, entre diversos outros clientes.

(PROMIND): Como os seus cursos estão estruturados para suprir as necessidades e expectativas de seus participantes?
(Dr. Ricardo): Desenvolvi ambos os cursos para que sejam de aplicação rápida, ou seja, o conhecimento adquirido será de fácil e rápida aplicação. Isso tanto para aqueles que ainda estão na faculdade, para os que estão desenvolvendo seus projetos como para aqueles que já atuam em alguma empresa ou instituição. O aluno sairá do curso com todas as idéias para a implantação ou melhoria de seu programa. Discuto sobre métodos e formas de como realizar cada projeto e as formas de medição dos índices necessários. Mostro os programas na prática, funcionando, e os resultados obtidos. E tudo isso pautado por uma abordagem científica.

 

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